Leia para uma criança
Estou sentada no chão da sala. Acabei de empurrar para o lado o livro que, anteriormente, permanecia em aberto em minhas pernas.
Hope está logo à frente, repousando sobre o tapete emborrachado colorido. A cabeça apoiada sobre o dinossauro de pano, que tem aproximadamente a mesma altura dela.
A história da vez é mais legal do que pensei ser. O livro é FanGirl, da autora Rainbow Rowell. A escrita é leve e repleta de diálogos divertidos em um cenário acadêmico.
Às vezes, me identifico com a Cath, exceto por alguns traços de sua personalidade. Não me considero introvertida, embora, dependendo do meu humor, possa ser. Em outros momentos, sou bastante animada e ousada.
Eu não tenho receio de me aproximar das pessoas, no entanto, algo se torna uma barreira entre mim e os outros.
Em minha opinião, Cath, além de ser a responsável por uma narrativa de qualidade, é uma ótima escritora, tendo muita experiência.
Os meus primeiros escritos foram aos nove anos, de acordo com as minhas falhas memórias. Foram cartas para o meu pai; todas as vezes em que me sentia triste ou sozinha.
Lembrei de uma situação que provavelmente está viva só em minha memória, os demais envolvidos talvez não se recordem.
A minha irmã mais velha, era universitária e não morava mais em casa. Numa noite, eu e nossa irmã mais nova, estávamos deitadas num beliche que hoje não existe mais. A mais velha havia comprado um kit infantil com diversas histórias das princesas da Disney: Cinderela, Branca de neve, Rapunzel, A Bela e a Fera… O kit acompanhava um CD de jogos também infantis, não tenho certeza sobre o que eram.
A chuva que começou a cair lá fora, dá um clima ainda mais nostálgico para este momento.
Ela, minha irmã mais velha, leu para nós, enquanto apresentava os livrinhos, presumo que não tenha sido barato. Mais tarde, quando ela estava vivendo em sua própria casa, íamos para lá durante as férias escolares ou no fim de semana.
Nós três jogávamos no notebook dela.
Na época, existiam notebooks com compartimento para rodar CDs. Aquele kit dos livrinhos com os jogos, me rendeu bons momentos de lazer com as minhas duas irmãs.
Na minha infância, a mais velha foi a primeira e única pessoa a ler para mim. Isso me marcou. Meu conselho, quase apelo, é: leia para uma criança.
Comecei a escrever muito nova, isso me ajudou a expandir a mim mesma. Tenho registros do ano de dois mil e treze, uma história com personagens não fictícios. Foi a história mais longa que já escrevi, tinha mais de cinquenta capítulos, isso só na primeira parte.
Eu tinha um computador, mas optava por escrever nos cadernos, gostava de escrever à mão. Com isso, lotei três cadernos da escola, época do fundamental e médio. Quando os cadernos ficaram sem páginas brancas, lembro-me de ter ido até o vizinho da casa em frente à minha e pedido um dos seus cadernos. Ele me deu muito generosamente…
Os cadernos continham informações escritas, o que não foi um obstáculo para mim, pois rasguei as folhas e deixei apenas as páginas em branco.
Também foi nesse dia que li Sherlock Holmes; O cão dos Baskerville. Fiquei fissurada no livro, quando terminei a leitura, custei muito para devolver, admito. Recentemente, consegui comprá-lo. Que bom!
Mais adiante, resolvi mudar um pouco essa primeira história que escrevi. Quando mais velha, achei a escrita infantil, nada madura. De fato, eu era isso.
Consegui reescrever dois capítulos apenas. Desanimei porque alguns cadernos se perderam, desconfio que a minha mãe tenha jogado fora com os livros antigos da escola.
Tenho toda a lembrança das personagens, dos cenários, de alguns diálogos, e o desfecho que aconteceria na segunda parte.
A leitura me levou para todas essas lembranças e me trouxe todos os pensamentos aqui expostos.
Em um capítulo do livro, Cath se encontra na aula de Escrita de Ficção, ministrada pela professora Piper que pergunta: por que escrevemos ficção?
As respostas me fizeram refletir sobre o porquê de eu ainda escrever.
Piper antecede a pergunta, dizendo não ter uma resposta para a pergunta feita por ela mesma. Todos respondem de maneira diferente.
Após refletir bastante, decidi: escrevo porque foi uma forma de registrar meus sofrimentos em outro lugar que não eu, por perceber a necessidade de dizer, porque gosto de juntar palavras com palavras, formar frases que, no final, se tornam um texto.
Os meus escritos são encontros pessoais comigo mesma. São desafios que despertam o meu lado espontâneo. Minha escrita é minha grande companhia. Não gosto da forma como o termo escritora exerce pressão sobre mim.
Os meus escritos não têm pretensões preconcebidas, representam apenas uma parte de mim que tomou nova forma.
Comentários
Postar um comentário
Oi, você que está lendo!
Se gostou, se identificou, pode deixar a sua opinião. Eu quero muito ler o que você tem a dizer, isso me agradando ou não. Escreva aqui suas sinceras expressões: